ESPAÇO PÚBLICO E QUALIDADE URBANA
ESPAÇO PÚBLICO E QUALIDADE URBANA Leonel Fadigas Faculdade de Arquitectura/UTL º 1. O desenho urbano é, na sua essência, o instrumento pelo qual damos expressão à configuração das cidades e dos espaços urbanizados. Através dele se definem as formas, se delimitam os contornos e se constrói a relação mais ou menos harmoniosa entre espaços edificados e não edificados, entre espaços ocupados e espaços vazios. De uma forma simples poderemos dizer que o desenho urbano é o molde com que fazemos bonitas ou feias, harmoniosas ou agressivas, funcionais ou complicadas, à escala humana ou fora dela, as paisagens onde vivemos. Melhor ou pior. Para isso contribui não apenas o conhecimento técnico e científico disponibilizado pelo urbanismo enquanto ciência e metodologia de ordenamento territorial, mas também a consciência social e cívica de quem aprova, licencia e gere a expansão urbana e as áreas consolidadas, antigas ou não. E este aspecto é um aspecto essencial do problema que constitui o tema central desta conversa. Porque, naturalmente, é através do desenho que se constrói a cidade. E quando falo de cidade, falo de todas as situações urbanas, independentemente da sua hierarquia administrativa, da sua qualidade urbana ou arquitectónica, da sua relação com as áreas envolventes, do seu funcionamento ou organização interna. É evidente que todos sabemos como a história, a cultura, as condições sociais têm dado origem, ao longo do tempo, a modelos bem diferenciados de espaços urbanos. Desde as soluções compactas determinadas pela necessidade de defesa, de que as cidades medievais são exemplo, até às soluções abertas onde uma aparente libertação de espaço sugere grande disponibilidade de espaços livres, os espaços habitados que conhecemos e onde vivemos são o resultado de um somatório de múltiplas e nem sempre concertadas intervenções. Nuns casos porque a evolução histórica, cultural, económica e social fizeram com que se considerasse anacrónicas algumas situações, noutros porque a realidade e pressão das dinâmicas sociais impuseram novas respostas para novos problemas. Não é de facto a mesma coisa a resposta do Marquês de Pombal ao terramoto de 1775 e o que isso significou na modernização da cidade de Lisboa ou o espalhamento de núcleos de construção clandestina nos concelhos de Vila Franca, de Loures ou de Sintra e de Cascais a partir de 1970. São realidades históricas e sociais bem diferentes que, naturalmente, determinaram resultados urbanísticos diferentes. A história mostra-nos como a realidade que hoje nos cerca é fruto de muitas e variadas circunstâncias das quais nem sempre somos os responsáveis mas somos herdeiros e os beneficiários. Para o bem e para o mal. Vale esta introdução sumária à matéria da conversa como ponto de partida para uma reflexão que tem a ver com uma componente importante da gestão urbanística que está quase sempre fora das preocupações de quem é responsável pela administração do território. Seja a administração local seja a administração central. Por ignorância, nuns casos, por incultura, noutros, por desinteresse em muitos e por outras razões mais escuras em tantos deles. Mas como o que nos junta aqui é a vontade de uma reflexão conjunta que sirva a todos num objectivo comum de tornarmos mais melhores, mais agradáveis, e acima de tudo mais seguros os espaços onde habitamos, trabalhamos e nos recreamos, concentremo-nos no essencial do tema. 2. O desenho urbano não é em si mesmo um elemento isolado na definição dos espaços urbanos. Quase sempre surge na sequência de planos de urbanização, mas por vezes é apenas a expressão gráfica do registo de morfologias urbanas e formas de povoamento que a história foi criando. Quer isto dizer que nem sempre os espaços urbanos são o resultado de uma atitude consciente e planeada mas apenas o resultado final de processos sociais complexos. É com esta realidade que vivemos. É com esta realidade que nos confrontamos todos os dias. Não vale a pena, aqui e hoje, avançarmos mais por este caminho quanto mais não seja porque o tempo é escasso e o importante é saber como, a partir desta realidade envolvente, podemos dar resposta às nossas ansiedades, aos problemas que temos que resolver, às emergências a que temos que dar resposta. Tendo sempre spresente que o conforto é tanto um objectivo do planeamento e do projecto urbano como uma componente importente de todos os programas que lhes estão a montante. Quem circula pelos espaços públicos, nos largos, nas praças, nos parques e jardinse e, acima de tudo, nos passeios que são de todos eles os mais desprezados, sente como esta preocupação pelo conforto e pela segurança nada por vezes tão esquecida. São disso exemplo mais evidente tanto a exiguidade da dimensão dos passeios, ocupados por uma parafernália de objectos, mobiliário urbano, tapumes, andaimes, abrigos de paragens de autocarros e outras coisa mais, a pobreza e a desqualificação dos pavimentos ou insuficiente previsão das necessidades de parquemento automóvel, mesmo em situações recentes. Uma realidade que, para além do conforto coloca problemas reais de insegurança e aumenta os factores de risco de acidentes. Sabemos, por experiência própria, que, por exemplo, as normas respeitantes às necessidades de estacionamento estão hoje ultrapassadas e não satisfazem uma sociedade onde aumentou significativamente o número de automóveis por família e que vive em espaços urbanos onde a definição das necessidades de estacionamento se fez à luz de critérios que hoje verificamos estarem completamente desadequados. Mas é um facto que o espaço é um recurso caro e que, por isso, se sente sempre retracção no uso par fins não imediatamente rentáveis do ponto de vista económico, como se a economia urbana não tivesse que ser sempre entendida na sua dimensão social. Ora a relação entre os arruamentos, os edifícios, os espaços livres, não é apenas o resultado de uma opção estética ou de uma opção funcional. Ou não deve ser. Esta relação configura uma articulação entre espaços construídos e espaços livres, configura formas de relacionamento entre áreas urbanas, continuidades e descontinuidades que dão formas às paisagens e configura também, e isto não é menos importante, a possibilidade de circulação. No interior da zona em causa ou, através dela, no interior do território onde se insere. Associadas a esta realidade não podemos esquecer que a segurança também se constrói com a rapidez de acesso, a facilidade de utilização dos meios de prevenção, controle e comnbate a factores de risco. Como os acidentes e os fogos. Todos sabemos que em condições de emergência a rapidez de actuação é um factor essencial para a resolução dos problemas e para a eficácia da intervenção. As facilidades de acesso, a liberdade de circulação, a relação entre a dimensão do acontecimento e os meios disponíveis para lhe dar resposta são condição de êxito e factor de segurança. Porque efectivamente a segurança é a uma situação complexa que se não cria pelo facto de os projectos de arquitectura terem uma apreciação prévia pelos bombeiros ou pelo facto de os loteamentos cumprirem determinadas normas regulamentares ou exigências funcionais. A rapidez de intervenção, em caso de emergência, passa por aqui. Nestas circunstâncias deve ser claramente entendido que o urbanismo dominante na nossa região não prima por estas preocupações. Nem regista, na sua formulação, nem na sua concretização prática através dos loteamentos e da edificação, preocupações de segurança individual e colectiva que tenham em conta que a qualidade de vida não é apenas o resultado de haver jardins e ruas mais ou menos limpas. É também o haver a sensação de segurança individual e colectiva face a eventuais calamidades, riscos naturais ou simplesmente face a à possibilidade de se andar tranquilamente na rua a passear. Temos portanto que ter em consideração que um dos factores de prevenção de riscos no quadro de uma organização urbana equilibrada é a possibilidade de acesso fácil e rápido a qualquer local. O que, se parece simples de dizer, nem sempre é fácil de concretizar. Mas não é apenas isto. O que na prática significa ser indispensável, e urgente, repensar não apenas o urbanismo explicitando uma afirmação tanta vezes feita e poucas vezes cumprida: a que as cidades são feitas de pessoas e que são estas a sua componente mais importante. 3. Perante esta situação podemos situar o conjunto de problemas que se prendem com a prevenção de factores de risco em meio urbano. E falo propositadamente em factores de risco para alargar o âmbito do que tradicionalmente se espera que seja a acção de prevenção e combate a incêndios e de prestação de socorros rápidos. Assim podemos identificar, de uma forma sumária, um conjunto de situações geradoras de problemas e susceptíveis de pôr em causa uma eficaz actuação em caso de sinistro: * largura de ruas reduzida face à dimensão dos veículos de emergência, sejam eles de combate a incêndios sejam ambulâncias; * presença de árvores em passeios demasiado estreitos; * estacionamento anárquico, nos passeios, a meio da faixa de rodagem ou em segunda fila; * relação desproporcionada entre a altura dos prédios e os meios disponíveis, por inexistência ou dificuldade de acesso; * ocupação urbana clandestina, com construções precárias ou não; * falta de redes públicas de água ou deficiente organização e funcionamento da rede; * inexistência de planos ordenadores de circulação e estacionamento; * ausência de planeamento urbanístico e deficiente organização e licenciamento de loteamentos; * ausência, ou mau dimensionamento, de redes de drenagem pluvial; * ocupação de leitos de cheia e de áreas geologicamente instáveis. Deste quadro, facilmente identificável em grande parte da região onde estamos, podemos retirar a importância do urbanismo como factor de prevenção contra riscos. Seja por uma ajustada organização espacial e funcional dos espaços urbanos seja pela previsão dos riscos enquanto realidade sempre presente e previsível, seja pela possibilidade que ele abre de actuação atempada sempre que necessária. Em boa verdade, e sem que com isso procure uma polémica sempre indesejável quando não contribua para melhorar as situações, cabe à gestão urbanística grande parte da responsabilidade pela eficácia e prontidão de resposta exigida no combate aos sinistros e à salvaguarda e socorro de pessoas e bens. Desta forma não pode deixar de ser encarada a gestão urbanístico como uma componente essencial da prevenção de riscos, especialmente quando estão em causa opções de uso e transformação do uso do solo que têm a ver com a segurança dos cidadãos. E isso não pode ser esquecido quando se definem políticas de intervenção nos núcleos urbanos antigos, reabilitação e legalização de áreas de ocupação clandestina, de recuperação de edifícios degradados ou de ordenamento do tráfego e do estacionamento em áreas centrais ou comerciais. O encerramento de ruas à circulação automóvel, medida sempre bem vinda, como resposta imediata ao congestionamento de áreas centrais e de disponibilização de espaço para o uso dos peões e para o recreio de ar livre deve, no entanto, considerar sempre a eventualidade da ocorrência de situações que imponham o rápido aceso de viaturas de emergência. Caso contrário, e veja-se o exemplo do Chiado em Lisboa, as intenções piedosas podem vir a revelar-se de consequências desagradáveis. Aqui como noutras circunstâncias também de boas intenções está o inferno cheio. Mas não são só os fogos que constituem ameaça à segurança de pessoas e bens nos centros urbanos. Menos frequentes (não é o caso deste ano!) as inundações, constituem uma situação de risco que, mais do que da chuva, decorrem de uma má utilização do solo e do espaço. Uma má utilização por incúria ou como consequência de ocupações urbanas em áreas marginais por serem estas as de menor valia imobiliária ou se destinarem a outros usos que não a sua rentabilização económica imediata: zonas de protecção a linhas de água, e a vias de tráfego, espaços verdes a construir (um dia) áreas expectantes de promoção imobiliária ou de construção de equipamentos. Nestas circunstâncias o desenho urbano revela-se essencial para a disciplina do uso do solo. Mas não isoladamente. Sem um planeamento urbanístico coerente e eficaz, sem estratégias de gestão do território capazes de integrar uma concepção ambiental e social do uso do espaço, o desenho urbano é um instrumento inútil e perverso. Inútil, porque não resolve as questões de fundo; perverso, porque mascara situações de risco e faz crer, num simplismo saloio, que se está a construir o melhor dos mundos. Ou seja, para concluir, um mau desenho urbano, ou a sua ausência, também é um factor de risco.
Escrito por
urbicanda em
08:32:45 |
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